Três Civis Baleados Pela PRM Durante Vandalização De Camião com Ajuda Humanitária em Chiure

Três civis ficaram feridos por disparos da Polícia da República de Moçambique (PRM) durante um tumulto ocorrido na aldeia de Napala, localidade de Mugipala, posto administrativo de Chiúre Velho, distrito de Chiúre, no dia 1 de Novembro de 2025, durante a distribuição de ajuda humanitária a famílias afectadas pelos ataques armados que devastaram a região.

O incidente ocorre semanas depois de um ataque terrorista registado a 11 de Outubro de 2025, que destruiu quase todas as casas da aldeia e provocou a morte de quatro pessoas doentes, entre elas três idosos e uma jovem rapariga, que não conseguiram fugir das casas incendiadas. Segundo relatos de residentes, após aquele ataque restaram apenas quatro casas e uma mesquita na aldeia.

Os moradores relataram que o tumulto teve início quando parte da população tentou apoderar-se do camião com os produtos, alegando desigualdade na distribuição e favorecimento de deslocados da vila-sede em detrimento dos nativos da aldeia. Um residente descreveu o que aconteceu durante a confusão e os ferimentos resultantes.

“Foi no dia 01 deste mês, a organização não governamental já estava lá a dar algum produto, para apoiar porque quase restaram apenas quatro casas e uma mesquita. O restante, esses homens incendiaram. Na localidade de Napala, aldeia de Mugipala, então os moradores fizeram algum distúrbio, querendo assaltar o camião que tinha os produtos. A polícia, quando tentava dispersar a população, um dos membros da PRM baleou três civis. Ninguém morreu, mas dois estão a receber cuidados médicos aqui e um está internado no Hospital Provincial de Pemba”, relatou o residente.

Outro morador explicou que a revolta surgiu devido à percepção de injustiça na distribuição dos produtos.

“A população aqui assaltou o camião porque durante a distribuição não conseguia nada. Os que recebiam muito não eram nativos daqui; eram pessoas deslocadas da vila-sede do distrito”, acrescentou.

Um terceiro residente comentou sobre os produtos entregues e a dificuldade de aceder a eles.

“Os produtos eram kits de tenda, alimentos e outros itens essenciais de abrigo. Muitos moradores enfrentaram problemas para receber o que precisavam devido à confusão e à desorganização”, revelou.

O incidente evidencia a vulnerabilidade contínua das comunidades afectadas pelos ataques armados. Também sublinha a dificuldade de acesso a recursos básicos e a necessidade urgente de maior coordenação, transparência e sensibilidade nos processos de ajuda humanitária. Autoridades locais e a PRM ainda não emitiram declarações oficiais sobre o episódio, enquanto líderes comunitários apelam a uma organização mais justa e equitativa da assistência humanitária.

O distrito de Chiúre, em Cabo Delgado, tem sido uma das zonas mais afectadas pelo extremismo violento nos últimos anos. Desde 2017, centenas de ataques foram registados na região, provocando dezenas de mortes, destruição de infraestruturas e deslocamentos forçados de milhares de famílias. Os ataques concentraram-se principalmente em áreas rurais como Napala, Mugipala e arredores, onde comunidades inteiras foram obrigadas a fugir das suas casas. Muitas aldeias ficaram reduzidas a poucas casas intactas, com escolas e infraestruturas públicas gravemente danificadas, agravando a crise humanitária e dificultando o acesso a ajuda básica.

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