Foi adiada para uma data ainda por anunciar a inauguração de uma exposição que integra obras do renomado fotojornalista moçambicano Kok Nam. A inauguração estava inicialmente prevista para hoje, dia 31 de Outubro, às 17h30, mas devidas as convulsões político-sociais que Moçambique vive, os organizadores viram-se obrigados a cancelar a cerimónia por motivos de segurança.
A exposição tem como título “Campo Experimental”, e é da artista Ângela Ferreira, em colaboração com a historiadora Alda Costa no Museu Nacional de Arte (MUSART), em Maputo.
A exposição explora pesquisas materiais e ambientais realizadas nos primeiros anos da independência do país (1975) envolvendo diferentes frentes de trabalho. O título da exposição refere-se especificamente ao nome de um espaço de aprendizagem agrícola mantido no campus da Universidade Eduardo Mondlane, a partir de 1976, onde funcionários, investigadores e estudantes trabalharam em conjunto para produzir alimentos, conceber ferramentas e estruturas, e formar agricultores, camponeses e técnicos comunitários.
Este local experimental foi coordenado pelo Centro de Estudos TBARN (Técnicas Básicas de Aproveitamento de Recursos Naturais/Técnicas Básicas no Aproveitamento Racional da Natureza), um grupo alargado de pesquisa formado nos primeiros anos da revolução pós-independência, para, entre diversas outras acções, melhorar a produção e a qualidade de vida dos agricultores com recursos mínimos.
Ferreira baseia-se nos vestígios visuais e textuais do TBARN para revelar o espírito revolucionário que fez de Moçambique um centro global de experimentação radical na década de 1970 e no início da década de 1980.
O projecto expande a prática de investigação de Ferreira e a sua procura pela contemporaneidade do passado. Campo Experimental emerge do diálogo contínuo da artista com Alda Costa, historiadora de arte e trabalhadora cultural moçambicana cuja experiência vivida durante o período da revolução socialista pós-independência e anos seguintes bem como os estudos posteriores a tornam memória viva de um momento incomparável na história cultural. Na exposição, objectos históricos do acervo pessoal de Costa são expostos ao lado da obra de Ferreira. O design destes objectos destaca a priorização das condições materiais na vanguarda da produção cultural dos primeiros anos de Moçambique independente. Essas características acentuam a estética do TBARN presente em toda a exposição: do uso multifuncional de materiais simples, a ênfase nas formas angulares dos objectos destinados a uso pragmático e as cores vibrantes nas paredes, baseadas no panfleto informativo produzido pela universidade (Queimadas, 1977). Ferreira enfatiza o carácter experimental do TBARN ao transformar algumas estruturas desenvolvidas na época em objectos estritamente estéticos—o pensamento estético torna-se um método produtivo para reimaginar aspectos da vida rural sob um novo modelo de colectividade.
Originalmente aberta no espaço de arte contemporânea Rialto6, em Lisboa, a exposição chega a Maputo num formato expandido: inclui vídeos do músico Scúru Fitchádu numa performance encomendada para a exposição, fotografias de Kok Nam do campus experimental do TBARN, e imagens usadas por Ferreira no processo da criação dos seus trabalhos. Outras obras referentes a Moçambique foram incluídas na exposição nesta versão apresentada no MUSART, incluindo For Mozambique (2008), exposta pela primeira vez no país. Através de um diálogo entre vozes e temporalidades diversas, os trabalhos de Ferreira investigam histórias que expressam simultaneamente pragmatismo político e ludicidade criativa, sendo simultaneamente enraizados localmente e de alcance internacional.»
Álvaro Luís Lima e Paula Nascimento (curadores da exposição)
Ângela Ferreira, nasceu em 1958 em Maputo, Moçambique, cresceu na África do Sul, onde obteve o grau de mestre na Michaelis School of Fine Art, University of Cape Town. Vive e trabalha em Lisboa, onde obteve o Doutoramento, em 2016. Acredita numa educação como contribuição política para a sociedade e continua a leccionar em Portugal (Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa) e em Moçambique.





