Relatório Revela Os Motivos que Levam Jovens de Cabo Delgado em Aderir aos Terroristas

O relatório do Observatório do Meio Rural, OMR, sobre a insurgencia no norte de Moçambique refere que na sequência do aumento da violência no Nordeste de Cabo Delgado, “entrar no mato” passou a constituir a expressão utilizada para designar a adesão dos jovens aos grupos de insurgentes que operavam no Nordeste da província.

Quando questionados pelo OMR, acerca dos motivos que levam os jovens a optar por essa via, as respostas tenderam a estruturar-se em torno de quatro factores. Em primeiro lugar, a falta de emprego e situação de vulnerabilidade e de carência económica das populações; em segundo, e relacionada com o anterior, a descoberta de recursos naturais e instigação (inter) nacional.

Em terceiro lugar, explica o documento, esse processo é associado à revolta contra o Estado e contra o oportunismo de funcionários públicos. Finalmente, são apontados aspectos psicológicos, relacionados com distúrbios mentais e agressividade. A falta de emprego e as necessidades económicas dos mais jovens constituem o motivo mais apontado pelos entrevistados para justificar a opção pela violência.

Os relatos apresentados no relatório, traduzem um profundo sentimento de vulnerabilidade da parte dos jovens, em termos de falta de emprego e dificuldade de integração nos mercados de consumo.

Num cenário em que a agricultura não constitui uma actividade rentável, a expulsão violenta de milhares de mineradores artesanais, actividade geradora de inúmeros empregos complementares (táxi-mota, confecção de alimentos, arrendamento local, comércio diverso, etc.), exerceu um impacto negativo sobre as microeconomias locais.

O relatório aponta que o aumento da escolaridade de muitos jovens contrasta com as dificuldades de integração no mercado de trabalho, pelo que a precariedade económica e ausência de alternativas torna a juventude bastante vulnerável ao recrutamento por parte de grupos radicais e violentos, sobretudo perante promessas de pagamento de quantias monetárias.

Simultaneamente, intensifica-se a fiscalização sobre actividades informais (nomeadamente comércio urbano ou serviços de transporte), quer em resultado do conflito armado, quer das medidas de contenção do COVID 19, quer de iniciativas de ordenamento do espaço urbano.

As graves violações de direitos humanos protagonizados pelas forças da autoridade agravaram ressentimentos locais, sobretudo num cenário de ausência de espaços e de canais de participação, ou de dificuldades de acesso à justiça.

Paradoxalmente, a ausência de protecção social e agravamento de restrições económicas, num cenário de oportunismo e brutalidade das Forças de Defesa e Segurança, FDS, coexistiram com a intensificação de apelos governamentais ao patriotismo e de mensagens de paz e coesão social, veiculadas em igrejas e mesquitas.

De aocrdo com o documento é neste contraste entre o discurso e a realidade que os jovens constroem as suas identidades e delineiam as suas estratégias sociais. Por outro lado, os fenómenos de pobreza generalizada coexistem com uma sociedade de consumo emergente, aumentando a diferenciação social. Nas vilas sede distritais e zonas periurbanas aumenta a oferta de bens e serviços. O acesso à internet proporcionado por smartphones permite a confrontação dos constrangimentos locais com as oportunidades do mundo global, aumentando as expectativas de integração na modernidade.

Emerge uma sociedade mais materialista e dirigida para o imediato, colocando maior pressão sobre a juventude. Em áreas mais (peri) urbanas verifica-se um maior calculismo nas relações sociais, com impacto nas relações de género, aumentando a pressão dos jovens rapazes para atender às necessidades das suas esposas e garantir a reprodução social. Como salienta Honwana (2012: 27; 35), os problemas sociais vividos pela juventude não devem ser entendidos como resultados de uma patologia ou de uma “transição falhada” para a vida adulta, mas uma consequência de desfavoráveis condições socioeconómicas de existência

Segundo o OMR, quatro anos após o início das hostilidades, a população afectada pela guerra apresenta-se fortemente descapitalizada. O conflito armado e o COVID 19 agravaram o sistema educativo, comprometendo a formação de toda uma geração de jovens, com impactos sobre a respectiva integração socioprofissional. A estabilização da segurança na região poderá desencadear, no médio prazo, o aumento do investimento, que implicará uma maior procura de quadros qualificados e a chegada de inúmeros trabalhadores oriundos do estrangeiro ou do Sul do país. Tornam-se expectáveis novos cenários de exclusão das populações locais e o aumento das desigualdades sociais (para níveis mais preocupantes que os anteriores ao conflito), assim como um aumento de sentimentos de desprotecção por parte do Estado.

Mantendo-se o cenário de graves tensões locais (sociais, étnicas e políticas), o reinício das operações da Total, só será possível à custa de um grande investimento na segurança militar, com danos colaterais sobre muitas populações. A persistência de centenas de milhares de jovens em situação social precária constituirá o maior obstáculo à estabilização social. Num contexto fortemente familiarizado com a violência, aumentam os riscos de conflito, sob a forma de greves laborais ou motins, formação de bandos de assaltantes (actuando nas estradas, em zonas residenciais e alvos económicos) ou grupos armados, quer nas zonas de maior concentração da indústria extractiva ou zonas suburbanas, quer em áreas mais remotas.

 

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