Entre o Inolvidável e Apoteótico Estreia “O Ancoradouro do Tempo” no Cine-Teatro Scala em Maputo

O filme “O Ancoradouro do Tempo”, realizado por Sol de Carvalho e inspirado na obra literária de Mia Couto, estreou na última quarta-feira no Cine-Teatro Scala, em Maputo, numa sessão que registou casa completamente cheia. O público começou a chegar muito antes da hora marcada, confirmando o forte interesse pelo cinema moçambicano e a expectativa em torno da obra. A exibição decorreu num ambiente muito participativo, marcado por risos, suspiros e diversas reacções espontâneas que evidenciaram o impacto da narrativa. No final, o filme recebeu uma ovação de pé, num gesto de reconhecimento à equipa que tornou o projecto possível. Durante a sessão, Mia Couto destacou a importância do trabalho colectivo no processo criativo do filme, sublinhando que o cinema é uma arte que “junta pessoas e esforços” e que escrever para este formato implica um processo de criação partilhado. O escritor partilhou ainda a satisfação de acompanhar de perto as filmagens na Ilha de Moçambique, convivendo diariamente com a equipa. “Esta equipa entregou-se de uma forma que nem consigo transformar em palavras. Há um espírito de união, de fazer juntos, que não se explica, sente-se.”

Possível adeus de Sol de Carvalho no cinema tradicional O realizador Sol de Carvalho contextualizou o processo de gravação, explicando que parte das filmagens teve lugar logo após a passagem de um ciclone pela Ilha de Moçambique, facto que marcou e transformou vários cenários naturais que podem ser encontrados no filme. Num momento marcante, afirmou ainda que esta poderá ser a sua última produção no formato cinematográfico tradicional. “Depois de 45 anos de profissão, penso que este é o último filme deste tipo que verão com a minha assinatura. Este modelo está a esgotar-se.”

Entre aplausos e expressões de espanto, Sol abordou a fragilidade estrutural do sector cultural no país, defendendo a necessidade de revisão do quadro legal que orienta a produção cinematográfica. Ainda assim, deixou uma mensagem de esperança. “Há muitos jovens a trabalhar com muito menos condições do que tive. É neles que deposito esperança.” A estreia encerrou com um ambiente festivo, marcado por interacções entre o público, a equipa técnica e os actores. A produção prepara agora novas exibições e actividades de divulgação, que serão anunciadas nos próximos dias, permitindo que um público ainda mais amplo possa assistir ao filme.

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