FDS Acusadas de Invadir Casas e Agredir Civis na Vila de Quissanga em Cabo Delgado

Os moradores da vila sede de Quissanga, província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, denunciam abusos cometidos por agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), que, segundo alegam, estariam a invadir residências durante transmissões televisivas de jogos de futebol, espancando cidadãos e criando um clima de medo e desconfiança.

As queixas foram apresentadas à nossa redacção nesta terça-feira, 25 de Novembro de 2025, em menos de 24 horas após o último incidente, relatado por diversas fontes locais.

As autoridades do sector da Defesa em Cabo Delgado, mesmo em Maputo, ainda não se pronunciaram sobre as acusações, mas recorrentemente os militares não assumem os seus actos ilegais no terreno.

“Nós aqui como população estamos a reivindicar ao governo local. Como aqui temos duas forças: Forças de Defesa e Segurança e a UIR, agora este grupo da UIR está a torturar a população quando a encontra a assistir televisão, nos jogos de futebol às 18 ou 19 horas. Eles invadem, expulsam a população e batem”, relatou um residente.

O mais recente incidente teria ocorrido no bairro Quissanga–Praia. “Aconteceu à noite, segunda-feira, logo aqui na vila sede”, confirmou um entrevistado.

A confusão sobre os objectivos da actuação policial é grande entre os populares. “Não soubemos, na verdade, o que eles querem. Será que querem que a população saia e fiquem só entre eles? Também não sabemos”, questionou outro morador.

“A população está a reivindicar para falar com as estruturas competentes acerca desta situação”, acrescentou uma fonte local.

Casos de violência continuam a ser reportados, numa altura em que o terrorismo se alastra para a província de Nampula, onde as autoridades governamentais procuram assistência alimentar para os mais de oito mil deslocados do distrito de Mamba.

“A última situação de tortura foi reportada à noite, quando encontraram, por volta das 19 horas, pessoas a assistirem ao jogo. Invadiram o local e começaram a torturar a população, e cada pessoa saía a correr”, narrou um entrevistado.

Os actos repressivos não se limitam aos locais onde se registam aglomerados públicas. “Mesmo te encontrando a conversar na sua casa em horas normais, 18 ou 19 horas, eles sempre vêm intervir e torturar a população”, declarou um residente, que não encontra explicação nas reacções militares estaduais.

“A questão é reunir, perguntar à população, ou então a população sair, como já tínhamos feito, e deixar que eles fiquem e façam o que querem. Ou então, saírem eles. Porque eles não têm nenhuma função aqui. Mesmo ficando, não ajudam em nada”, defendeu um morador.

Por falta de espaços públicos adequados, os jogos são assistidos em casas particulares. “Aqui não tem salão especificado. Costumamos assistir em casa de uma pessoa”, contou uma fonte local.

Sobre a afluência às transmissões, um morador explicou: “O número das pessoas que estavam ontem a assistir não se sabe bem, mas às vezes tem sido 10, 15 ou até 20, dependendo do jogo”.

Em relação à legalidade das acções, outro popular comentou: “O governo ainda não se pronunciou se poderia haver recolher obrigatório”, observou.

Alguns residentes acreditam que os abusos são intencionais. “Acho que até a própria direcção deles não tem conhecimento, mas eles fazem isso muitas vezes para invadir os bens da população. Porque quando a população está a dormir, eles circulam normalmente para invadir aqueles bens”, acusou um morador.

A comunidade já tentou dialogar com as autoridades. “O pedido para falar com o governo distrital já se submeteu, mas ainda não agendaram o dia. Há muitos encontros com o governo local. Não sei se é por causa dessas coisas do Fundo Local, mas ainda não agendaram data nem dia para se debater este assunto”, lamentou uma fonte comunitária.

Recorde-se que um caso semelhante ocorreu no distrito de Chiúre, também em Cabo Delgado, onde a força local era apontada como responsável por práticas abusivas. Em Junho de 2024, o presidente do Município de Chiúre, Alicora Intutunha, denunciou publicamente a violação de direitos humanos no âmbito de um recolher obrigatório não oficialmente esclarecido à população. Segundo o edil, a partir das 18 horas havia limitações severas à circulação, e vários cidadãos foram agredidos durante as operações de imposição da medida.

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