A tensão voltou a pairar sobre o distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado, com relatos de movimentações militares intensas e fuga massiva da população, temendo novos ataques terroristas. A situação no terreno continua a deteriorar-se, segundo relatos de fontes locais que falaram ao nosso jornal na tarde desta segunda-feira.
A presença crescente de militares em Bilibiza, no distrito de Quissanga, está a gerar um clima de medo entre as comunidades vizinhas de Muidumbe, sobretudo nas aldeias do posto administrativo de Muambula, que fazem fronteira com aquela localidade. Segundo explicam fontes locais, os militares estão a ser alocados para Bilibiza, mas passam e circulam através de Muidumbe, o que tem provocado receio e fuga da população, que associa essas movimentações a possíveis confrontos ou ataques.
Para muitos residentes, a experiência vivida ao longo dos anos ensinou a associar movimentações militares à possibilidade de confrontos iminentes.
“Aqui a situação ainda está difícil. Desde a semana passada até ontem estão a abastecer muitos militares em Bilibiza, e passam sempre daqui, mas não acompanhamos ataques”, relatou uma fonte local entrevistada, que denunciou a ausência de explicações claras para o reforço militar na zona, levantando dúvidas sobre o que está realmente a acontecer.
Outro residente aponta um padrão perigoso que se tem repetido ao longo dos tempos. “O que está a acontecer é que a população está a fugir quando vêm estes militares, porque nós já sabemos que todas as agitações que chegam até aqui na vila-sede de Muidumbe começam lá em Bilibiza”, explicou o residente entrevistado, destacando a ligação entre reforço militar e escalada de tensão, numa afirmação carregada de preocupação.
O medo é visível e generalizado. “A população está a fugir porque já sabe que onde há muitos militares na nossa província há sempre alguma coisa estranha. E nós, que estamos a ver estes blindados a passar toda hora, já sabemos que há situação”, lamentou outra fonte residente, deixando transparecer o estado de constante alerta e insegurança vivido pelos civis.
Enquanto isso, o fluxo de deslocados continua a aumentar. “Alguns estão até agora a entrar em vários centros de deslocamento de Muidumbe, enquanto outros continuam a ir para Mueda”, afirmou um morador entrevistado, descrevendo o drama humanitário que se agrava, com famílias obrigadas a abandonar as suas casas em busca de segurança.
A desconfiança em relação às forças de segurança atinge níveis alarmantes.
“Nós aqui já não confiamos em nenhum militar, nem esses nossos moçambicanos, nem ruandeses, porque os terroristas usam os mesmos tipos de fardamento. Por isso, há esta fuga”, declarou uma fonte local, revelando o sentimento de abandono e confusão instalado na população.
Os relatos evidenciam que, mesmo na ausência de ataques directos, o ambiente de insegurança continua a minar a paz social, alimentando o medo, o deslocamento forçado e a fractura na confiança entre civis e as forças que deveriam protegê-los.
Os postos administrativos de Chitunda e Muambula, no distrito de Muidumbe, partilham limites com Bilibiza, no distrito de Quissanga, formando uma linha sensível de ligação entre zonas constantemente afectadas pela insegurança.
Nos últimos dias, têm-se registado movimentações frequentes de grupos armados no posto administrativo de Muambula, onde os terroristas continuam a realizar incursões, mantendo a população em constante estado de alerta e insegurança.
Recorde-se que, no dia 13 de Setembro de 2025, a população do distrito de Mocímboa da Praia rejeitou e boicotou publicamente um evento inicialmente previsto para ser dirigido por tropas ruandesas e moçambicanas. No entanto, no dia do evento, apenas se fez presente o administrador do distrito Sérgio Cipriano, acompanhado pelo comandante distrital da PRM e vários agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR).
No mesmo dia, a população manifestou o seu descontentamento com a presença das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) no distrito, demonstrando preferência pelas tropas ruandesas, sob alegações de envolvimento dos militares moçambicanos em práticas de abusos e atrocidades.
Este cenário ocorre num contexto de crescimento da violência armada em Cabo Delgado, onde até Agosto de 2025 foram registados mais de 500 ataques, muitos deles contra civis, e a instabilidade já começa a espalhar-se para a província de Nampula, concretamente para o distrito de Memba, com destruição de casas e escolas e deslocamento de milhares de pessoas, segundo a IOM e ACLED.





