O bairro de Metula, na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado, tornou-se foco de atenção pública e institucional devido às actividades da empresa Moz Environmental, responsável pelo tratamento de resíduos perigosos. Nos últimos meses, moradores denunciaram alegados efeitos nocivos dos resíduos sobre o ambiente local e a saúde da população, incluindo o episódio recente em que duas crianças sofreram intoxicação, possivelmente causada pelo contacto com resíduos liberados pela empresa.
O Município de Pemba, após receber diversas queixas, decidiu iniciar processos administrativos contra a Moz Environmental, alegando que a operação da empresa estaria a afectar o meio ambiente e a qualidade de vida da comunidade. Em resposta, a empresa anunciou a intenção de transferir suas actividades para uma nova área, ainda dependente da emissão de licenças ambientais pelas autoridades competentes.
Em conferência de imprensa realizada nesta segunda-feira, 27 de Outubro de 2025, Alfredo Zandamela, representante da empresa, detalhou o plano de mudança: “De forma alternativa, a empresa identificou um espaço muito próximo também do aterro, cerca de 1 km de distância. Neste momento já se realizou a consulta pública naquela zona, e o que está em curso é o sistema de licenciamento do espaço, de modo a termos o Duate e todas as licenças ambientais que nos permitam fazer a transferência. Então, se nós tivermos todos esses documentos o mais rápido possível, também o mais rápido possível nós saímos daqui.”
Zandamela reforçou que a empresa não se opôs à transferência, reconhecendo que o crescimento urbano transformou a área onde opera, tornando-a inadequada para actividades industriais.
“O que quero deixar claro é que nunca a empresa rejeitou a transferência. A empresa compreende que a zona onde está a operar neste momento deixou de ser uma zona exclusivamente industrial, porque já tem muitas residências à volta com o crescimento da cidade de Pemba. O que nós sempre pedimos foi tempo para reinvestirmos num outro espaço, para podermos sair. Então, sair é algo que já está decidido; estamos apenas à espera da documentação.”
As denúncias das comunidades incluem a oxidação acelerada das chapas de zinco nas residências vizinhas, alegando que os resíduos da empresa poderiam estar a provocar danos nas habitações. Zandamela explicou que não há evidências técnicas que comprovem a ligação directa entre os resíduos da empresa e os danos reportados, mas reafirmou o compromisso com o diálogo comunitário.
“Sobre as reclamações das chapas, primeiro explicamos à comunidade que não há nada tecnicamente que prove que essa oxidação acelerada tem a ver com o nosso funcionamento. Se olharmos a nossa localização, veremos que do lado esquerdo temos as águas do mar e, atrás de nós, a população também está próxima dessas mesmas águas. Então, provavelmente, com a evaporação do mar, isso pode acelerar a situação. Mas nós não ignoramos isso e entendemos que, dentro daquilo que são as políticas de responsabilidade social da empresa, devemos continuar a dialogar com as comunidades.”
O caso que mais gerou preocupação envolve duas crianças que, supostamente, foram intoxicadas por resíduos perigosos enquanto brincavam nas imediações da empresa. Este incidente mobilizou imediatamente a comunidade e intensificou a vigilância sobre as actividades da Moz Environmental. Fontes locais relataram que os menores tiveram sintomas graves, embora ainda se aguarde a confirmação oficial das causas exactas da intoxicação.
O incidente evidenciou a vulnerabilidade das comunidades residenciais próximas a áreas industriais e levantou questionamentos sobre a responsabilidade social e ambiental das empresas de resíduos perigosos, particularmente em áreas urbanas densamente povoadas como Metula.
O Conselho Municipal de Pemba promoveu reuniões com moradores, representantes da Moz Environmental e autoridades locais, tentando mediar a situação e reforçar o cumprimento das normas ambientais. Apesar disso, as actividades da empresa continuaram até o anúncio da futura transferência, aumentando a tensão entre moradores e autoridades.
A situação ganhou um novo desdobramento com a Procuradoria Provincial de Cabo Delgado, que confirmou a abertura de investigação para apurar se a Moz Environmental está de fato a poluir o meio ambiente e se a empresa tem ligação directa à morte ou intoxicação das duas crianças supostamente afectadas pelos resíduos perigosos. As autoridades afirmam que o processo envolve análises laboratoriais e perícias técnicas, visando esclarecer responsabilidades e adoptar medidas legais caso sejam constatadas irregularidades.
A cidade de Pemba, que nos últimos anos tem registado crescimento populacional acelerado, enfrenta desafios relacionados à ocupação urbana em áreas próximas a instalações industriais. A situação de Metula, bairro residencial situado próximo a um aterro e a unidades de tratamento de resíduos, é um reflexo desses desafios. O caso da Moz Environmental evidencia a necessidade de planeamento urbano, fiscalização ambiental rigorosa e políticas de responsabilidade corporativa para proteger a população e garantir o uso seguro de áreas industriais próximas a zonas residenciais.
A Moz Environmental afirmou que a transferência é prioridade e que pretende concluir o processo assim que todas as licenças forem obtidas. Por outro lado, a Procuradoria Provincial mantém acompanhamento contínuo sobre as operações da empresa e sobre a investigação envolvendo a morte das crianças. A população de Metula, por sua vez, permanece em alerta, exigindo respostas concretas e medidas que garantam segurança, saúde e protecção ambiental.





